2003/07/19

A "posta" que não queria escrever (reincidências) - 2ª parte 

Afinal estou muito bem acompanhado nas inquietações que ontem “postei”. Embora não deva ficar feliz com isso. Alguns dos mais reputados especialistas na matéria vieram a público atacar a não-decisão da Relação de Lisboa, como já antes tinha feito a Ordem dos Advogados. E fizeram-no em termos muito marcantes, contrastando com o timbre de sóbria contenção e de subtis convites a “segundas leituras” que infelizmente são habituais, entre nós, nestas circunstâncias. O que revela a gravidade do que se está a passar. Cito o Doutor Costa Andrade que, no Público de hoje (ainda não disponível on-line) dizia: “Se a defesa contesta a prisão preventiva, não sei porque é que um novo despacho que confirma o anterior inibe um tribunal superior de apreciar a questão. Se o primeiro despacho está inquinado, o segundo também estará. O motivo e fundamento da conflitualidade entre a investigação e a defesa é o mesmo, o estado da coisa é o mesmo: uma prisão preventiva cuja legalidade se contesta. Acho muito estranho esta prevalência do formalismo sobre a substância das coisas” (sublinhado nosso).
Até Fernando Madrinha, no jornal-do-regime-e-de-defesa-de-tudo-o-que-está (pedem um “santo e senha” para aceder on-line), transbordou em críticas ao modo como a Relação de Lisboa descartou o recurso dos arguidos.
Apesar disso, recebi bastantes reparos por ter feito o que fiz. Esclareço que não sou socialista (salvo seja!), não conheço ninguém ligado ao caso em questão, nem nutro qualquer espécie de simpatia pelos criminosos que cometem actos de pedofilia. Muito pelo contrário.
Mas o que está em causa é mais importante do que ocasionais receios desse tipo de confusões. Está, claramente, em cima da mesa a credibilidade das magistraturas e do poder judicial. O país inteiro tem os olhos postos nas vicissitudes deste caso. O que implica, mais do que nunca, a necessidade de procedimentos indiscutivelmente escorreitos, acima de qualquer dúvida. Não é manifestamente o que se está a passar. As notícias que os jornais têm vindo a exteriorizar provocaram enorme perplexidade nos peritos, profissionais e em amplos sectores do público em geral. Agora, esta não-decisão da Relação de Lisboa vem acentuar as incertezas e causar ainda mais alarme social quanto ao modo como os principais agentes do nosso sistema judicial estão a actuar. Apenas o representante da Associação Sindical dos Juízes Portugueses veio a público fazer a abonação funcional dos colegas, num gesto deslocado e deveras preocupante de “defesa da coutada”.

Porquê? O que provoca esta aparente inabilidade do poder judicial em lidar com este tipo de situações? De acordo com os dados disponíveis (acreditando na versão dos factos - não desmentida - que a imprensa disponibilizou) três razões me parecem possíveis.
1. A primeira prende-se com a possível incapacidade de alguns agentes do poder judicial se conseguirem descolar das emoções patentes nos casos que têm o dever de julgar e manterem o sentido da equidistância, inerente à imparcialidade. As coisas começam a correr muito mal quando, nos Tribunais, os “casos” se transformam em “causas”. Quase imediatamente, os fins que se querem atingir tornam-se indiscutíveis e indispensáveis; e os meios passam a ser instrumentais face à grandeza dos propósitos. A partir daí, tudo é possível. Os juízes deixam de estar acima dos factos e embrenham-se neles. Poeticamente, à maneira da Ode de Quental, “sonham ser cavaleiros andantes”. Perdem a capacidade material de decidir, transfiguram-se em partes.
2. A segunda causa eventual é bem mais prosaica. Alguém, durante o percurso, fez grossa asneira. Decidiu o que não devia, confundiu indícios com provas, errou nos fundamentos. A partir do momento em que se percebeu o desacerto, por vícios entranhados num poder que não está habituado a ser posto em causa (que, muitas vezes, parece confundir a “separação dos poderes” com o poder factual do quero, posso e mando), a corporação, afanosamente, dispôs-se a cobrir o engano em vez de o corrigir de modo transparente. Como tantas vezes acontece, correndo o sério risco de que o segundo erro - tentar encobrir o primeiro - se venha a revelar bastante mais pernicioso.
3. A terceira possibilidade já não é sequer prosaica, pois assenta num juízo de aferição feito de experiência comum, profissional e pessoal, de convívio com magistrados do nosso foro. Nesta visão terra-a-terra, há um pressuposto sine qua non: muitos dos nossos magistrados são maus! Pronto, cá está. Esta é a verdade inominável, tantas vezes sussurrada nos corredores dos Tribunais e das faculdades, mas estranha ao mundo dos leigos. Nesta versão, não há cabala política ou judicial, nem iluminados em demanda do Santo Graal da Justiça: o que existe é uma espessa crosta de incompetência e de insensibilidade ao sentido do “justo” por parte de alguns profissionais da magistratura. Nada disso seria demasiado peregrino ou preocupante neste país, não fora a irreprimível tendência da corporação em não querer ver, a sua resistência em sair do “estado de negação”, tentando obstinadamente exaltar todas as atitudes dos magistrados e verberando nervosamente qualquer assomo de crítica.

Veremos se alguma destas hipóteses se vem a demonstrar. Estou aberto a outras teses. Mas, infelizmente, julgo que a verdade está algures nestas que apresentei.

Convenção Europeia 

O Projecto de Constituição (versão final, apresentada ao Conselho Europeu de Roma) já está disponível em português, aqui. No Relatório enviado pela Presidência da Convenção ao Presidente do Conselho, escreveu-se o seguinte: "Alguns membros da Convenção, embora não pretendessem bloquear o consenso, não puderam dar o seu apoio ao projecto de Constituição".
As causas deste desacordo estão nas páginas 21 e seguintes do Relatório. Transcrevo apenas algumas delas:

"Foi negado aos membros da Convenção o direito à tradução, distribuição, debate e votação das suas alterações";
"Nem um só eurocéptico ou «euro-realista» foi autorizado a estar presente como observador ou a participar nos trabalhos do Praesidium, nem de nenhum dos seus secretariados"
"Giscard d'Estaing não permitiu o exercício da democracia, nem um processo normal de votação na Convenção."
"O Projecto de Constituição cria um novo Estado europeu centralizado, com mais poderes, mais remoto, com mais políticos, mais burocracia e um maior afastamento entre governantes e governados."


Estas notas constam de um relatório oficial, enviado ao Conselho Europeu juntamente com o Projecto. O alegado consenso, tão apregoado por D'Estaing é, por isso, falso. É certo que não passa de um projecto, que terá de ser aprovado. Todavia, ao mesmo tempo, d'Estaing afirmou ontem em Roma "A Constituição poderá ser então assinada em Maio de 2004, nas vésperas das próximas eleições europeias, que lhe imprimirão um cunho de ratificação popular". Considerar que a participação nas eleições para o Parlamento Europeu equivale a ratificar o Projecto de Constituição parece-me o maior absurdo que ouvi nos últimos anos, tanto mais que muitos dos candidatos serão certamente contrários ao dito projecto...
Mas VGE não se ficou por aqui. Disse ainda:
"Este projecto é um êxito por ser um projecto acabado, ao pormenor, sem alternativas".
Bem, talvez esta frase ainda seja mais absurda do que anterior...

Libertação dos jornalistas presos em Cuba (via Fumaças) 

Os Reporters sans Frontières iniciou uma petição em prol da libertação dos jornalistas presos em Cuba por delito de opinião. Se quiser, assine aqui.

2003/07/18

A "posta" que não queria escrever... 

Desde ontem que hesito em escrever sobre isto. Quando ouvi a notícia pensei que estava incompleta. Mas as versões mantiveram-se em todas as fontes. Tentei atingir os argumentos a favor. Mas não existiam ou não se ouviram. Tudo o que se dizia redundava nos desgastados axiomas da “independência dos juízes” e na “igualdade de todos perante a lei”. Comecei a ficar inquieto. Os jornais de hoje também não adiantam muito. Parece que, afinal, os fundamentos da defesa no recurso de Paulo Pedroso para o Tribunal da Relação não foram apreciados porque se considerou que a reconfirmação da prisão preventiva, entretanto decretada pelo Juiz de Instrução, era um facto superveniente que tornava inútil o recurso. A ser assim, a Relação decidiu de modo extremadamente formal, sem ouvir a defesa, sem contraditório. Pior, o raciocínio jurídico em que assentam – repito, segundo a versão da comunicação social – parece ser de uma fragilidade confrangedora (e assustadora). Com resultados inequivocamente perversos. É bom lembrar que os arguidos em causa estão presos preventivamente há vários meses ao abrigo de duas decisões da mesma entidade judicial, proferidas pela mesma pessoa. Ora, o que está em causa nos fundamentos para declinar uma decisão de fundo por parte do Tribunal de Relação são direitos processuais de natureza e graduação distintas: por um lado, o direito do arguido em ver verificados concretamente os pressupostos da prisão preventiva de 3 em 3 meses; por outro e em choque aparente, o direito fundamental de recurso das decisões judiciais – art. 32º, nº 1, da CRP - (nomeadamente aquelas que põem em causa a privação da liberdade) e o princípio geral da dupla jurisdição. São direitos cuja intensidade não é comparável sendo que, em caso de conflito ou sobreposição, o segundo prevalecerá sempre sobre o primeiro.

Mas o caso assume ressonâncias mais inquietantes. Foi público que a apreciação da prisão preventiva de Paulo Pedroso foi inopinadamente antecipada antes de se perfazerem os 3 meses legais. Curiosamente, foi essa antecipação que permitiu a decisão da Relação, i. é a não-decisão fundamentada na confirmação antecipada da prisão preventiva.
Será, talvez, ir um pouco longe de mais acreditar que existiu uma estratégia visando evitar que o Tribunal da Relação se pronunciasse acerca da questão de fundo. Ou seja, o que estava em causa neste recurso era saber se o 1º despacho que decretou a prisão preventiva estava devidamente alicerçado na lei ou se, ao contrário, as graves informações veiculadas pela imprensa sobre as peregrinas interpretações de conversas telefónicas e reconhecimentos por más fotografias, eram verdadeiras. Agora, o terrível formalismo (a meu ver, desajustado) dos nossos Tribunais não permitirá conhecer, para já, se as decisões tidas no mais importante caso judicial desde o das “FP 25” têm ou não sustentabilidade na lei e na justiça.
Sem querer – ainda – crer numa eventual estratégia conspirativa de uma corporação judicial sem grandeza para dar o braço a torcer, sou de opinião que esta situação, exclusivamente criada pelo poder judicial, é lamentável. Como precedente, muito perigosa. Como lógica de actuação num caso ultra-mediático, social e politicamente, é de uma estupidez tal que levanta sérias dúvidas sobre a qualidade de quem tem a competência para tomar este tipo de decisões.
Resta-nos aguardar pelos desenvolvimentos do caso. Esperando que os nossos piores receios não se confirmem. Mas já há males dificilmente remediáveis.

Mais vale tarde que nunca 

No meio da polémica inconsequente acerca da legitimidade da intervenção no Iraque, a pragmática Rússia parece ter corrigido a sua retórica e passado à (boa) acção. O Mata-Mouros espera que a Bélgica, a França e mais alguns, sigam este caminho exemplarmente aberto pelo Dr. Lamego.

2003/07/17

Liberdade de expressão "à francesa" (via Merde in France) 

O Tribunal de Grande Instance de Paris proibiu os Repórteres Sem Fronteiras de continuarem a utilizar o cartaz que se segue, obrigando-os ao pagamento de uma multa de 200 euros por cada utilização "indevida". O argumento foi a violação dos direitos de autor da fotografia, pertencentes à filha do fotógrafo cubano Alberto Korda...

Depósito Obrigatório 

JPP defende hoje no Público o "depósito obrigatório" da blogosfera.
"A blogosfera devia ter um "depósito obrigatório" imediato. Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003". Não discuto, até aceito, a última afirmação. Mas obrigar O Ministério da Cultura ou algum dos seus muitos Institutos ou Serviços a arquivar tudo o que aqui se escreve parece-me um tanto ou quanto exagerado. Os blogs, com excepção, porventura, da Coluna Infame são "obras" em constante movimento. Pergunto por isso "como" e sobretudo "quando" depositá-las? Por mim, dispenso que me obriguem a enviar os meus posts para depósito. Já temos cá a nossa Torre do Tombo...


São Tomé 

Desde a semana passada que havia mais militares portugueses do que habitualmente em S. Tomé e Príncipe, mais precisamente militares da força aérea (nesta notícia diz-se que são da marinha, mas erradamente, creio eu, já que o P-3P é um avião e o Montijo uma base aérea...), para participarem numa missão experimental de vigilância marítima, "detecção e classificação do tráfego marítimo, passando pelas actividades de pesca, indícios de poluição marítima, actividades de pesquisa de recursos naturais, chegando à detecção de actividades ilícitas, como é o caso concreto de transbordo de substancias psico-trópicas e outras análogas no alto mar", campos em que, como é sabido, as nossas Forças Armadas têm larga experiência e eficácia.

Férias Judicias 

Só uma observação, em abono da "objectividade": "Férias Judicias" não é sinónimo de "Férias dos Juízes". Estas (as dos juízes) estão reguladas no Estatuto dos Magistrados Judiciais. Em todo o caso, quase três meses por ano de encerramento dos tribunais para a generalidade dos processos é, de facto, excessivo.

Reformas ou rupturas? 

O nosso amigo Gabriel eh sintetico e corrosivo q.b. na sua posta sobre Ferias Judiciais: tudo somado, qualquer coisa como 3 meses de ferias a quem trata da nossa justica­. Isto, conjugado com o enorme e labirintico mamarracho que eh o edifi­cio legal portugues, explicarah em grande parte a lentidao do nosso sistema judicial.
Duas perguntas obvias:
1 - Serah assim tao difi­cil atribuir aos nossos magistrados e quejandos os mesmos 22 dias uteis de ferias de qualquer cidadao comum e por os Tribunais a funcionar todo o ano? Imagino que eles se estarao a sentir muito mal com tamanho privilegio...
2 - Nao seria de se pensar em revogar uns­ 80% da legislacao que nos rege, que serah redundante e complicadora, tornando assim mais simples e claro o nosso enquadramento legal? Imagino que seja muito mais facil e rapido revogar leis do que produzi-las...
Serah assim tao complicado? Bastaria pouco mais que as duas meras reformas acima enunciadas. Ou seriam antes profundas rupturas?
Tanto melhor, entao!


2003/07/16

O ridículo vai matá-la 

A "constituição" europeia está-se a transformar num daqueles documentos onde se pode encontrar o que se quiser, dependendo da vontade do "freguês". Quem a desdenha realça as incongruências, as incompletudes e o estilo ridículo da sua redacção. Prudentemente, omite os aspectos positivos para a construção da Europa, o acentuar da inter-govermentalidade, a necessidade de refundação do modelo. Difícil é não esquecer ambas as vertentes e, ainda assim, tomar posição. Mas há gargalhadas que, irremediavelmente, fazem pender o intérprete para um dos lados. Este obsessivo esforço gaulês em serem a "estrela da companhia" está a causar mais danos na popularidade da "constituição" do que se imaginaria. Como hoje escreve VGM "Giscard d'Estaing pediu à Academia Francesa que revisse a correcção da linguagem no texto do projecto de constituição europeia. Quer chegar a «un texte qui soit beau». É uma atitude inteligente para chamar a atenção para a língua francesa. Mas disfarça pouco a veleidade de que a versão francesa seja a versão de referência, superior às outras. Os imortais sugeriram 900 correcções, entre grandes e pequenas".
Depois disto, só me resta tratar da minha higiene mental aqui e aqui. Para começar.

Constituição Europeia 

Paulo Castro Rangel escreve hoje no Público: "Tenho recorrentemente defendido que a União Europeia (UE) já dispõe de uma Constituição em sentido material, parcialmente escrita, parcialmente resultante do costume, da jurisprudência e do equilíbrio político inter-estadual.". Admito que tenha razão. Mas, até agora, a generalidade dos juristas (em particular os constitucionalistas) têm discordado (ou evitado) desta perspectiva, que vê de forma diferente a "hierarquia das normas".
O autor disserta ainda sobre um tema já aqui referido, o das relações entre as "duas constituições".

Herman Sic 

Já vi tanto barulho por causa de nada! As boas consciências pós-modernas revoltam-se por qualquer aragem que ameace a temperatura morna do "caldo" politicamente correcto em que subsistem. Fala-se em igualdades, em quotas, em minorias, em desprotegidos, em desfavorecidos. Dogmatizam-se os direitos das crianças, das mulheres, dos homossexuais, dos "sem abrigo", dos "sem terra", dos sem rendimento, do ambiente, dos animais, dos mais "fracos". Exige-se protecção por tudo e por nada. Protesta-se alegremente contra muito daquilo que integra a essência da nossa civilização. Fabricam-se causas. Berra-se, ataca-se, defende-se. Há especialistas. Grupos de defesa de qualquer coisa, de ataque a “esta” coisa qualquer, peritos na berraria sem fim e sem sentido. Associações de... Amigos do... Corporações. Igrejas. Ordens. Ligas.

Onde param todos, que não ouço ninguém a verberar o obsceno apoucamento de um deficiente mental ? Onde está a exigência de responsabilidades a quem levou para a arena do opróbrio e, diante de milhões, tentou aumentar as audiências mediante a humilhação de um incapaz ? Que é feito dessas inúmeras organizações de fins "sociais", ideais, caritativos, multiculturais e "humanos", que não as vejo, agora, não as ouço, não sei onde estão ?

Há silêncio porque quem estava lá, a ser rebaixado para gozo dos outros, não pertencia a uma minoria? Porque não é uma "pessoa de cor"? Porque não está filiado numa corporação? Porque não tem ligações ao meio Gay & Lesbian? Porque não integra um lobby? Deve ser. Fosse aquele pobre homem, um preto, uma mulher explorada, um homossexual perseguido, um animal abandonado, e multidões estariam ao seu lado, bramindo contra a sua sorte. Mas não. É apenas um deficiente mental. Por isso pode ser alvo de troça. E todos se calam.

HOMOS HISTERICUS  

De Francisco Teixeira, recebemos esta deliciosa "posta" cujo objecto é aquela personagem que LR já considerou "representar a mouraria no seu máximo esplendor":
"Não sei de onde vem a surpresa face ao errático e patético comportamento de Luís Filipe Menezes, que num dia diz duas coisas contraditórias e no seguinte três incompreensíveis! LFM é um dos melhores exemplos lusos do Homos Histericus, um certo tipo de personagem que faz dos sentimentos exibição, arma e instrumento político, sempre à espera que cada uma das sua lágrimas renda alguns votitos. Assim sendo, não há, tanto, que dizer coisas com tino, mas coisas com dimensão dramática e popular. Este tipo de personagens são perigosos porque, na verdade se reproduzem, na nossa terra, a uma velocidade impressionante, como se a espessura emocional de cada um fosse directamente proporcional à sua iniqua fealdade".

2003/07/15

Publicidade Enganosa 

Quando regressar, a Abreu vai ter de me ouvir. Isto de andar a publicitar “chalets” integrantes de paradisíaco “resort”, é nitidamente lançar o isco para apanhar otários.
“Chalets”, serão por fora. No interior, pior que cubatas! Porta com rede anti-insectos a abrir com simples encosto; cama, sofá e 2 cadeiras, constituem a mobília; mais um colchão e acomodam-se os miúdos em hall a que não chega ar condicionado; mas chega a brisa marítima, infiltrando-se através da porta, e por baixo dela acompanhada de poeira, quer se queira, quer não; mesas de cabeceira é coisa que não existe e muito menos escrivaninha, falha gravíssima, que inviabiliza escrever postas; acolhedor cubículo constitui o WC, lavatório e espelho “artisticamente” incrustados em moldura de madeira, com lascas salientes prontas para esfacelar mão ou braço após qualquer gesto repentino.
Enfim, nada que não seja aceitável na simplicidade dos trópicos. Mas difícil de engolir por bètinhos do 1º mundo. Donde, pressionado por reivindicações familiares, aí vou eu no 1º dia à recepção lavrar veemente protesto e exigir a troca para uma suíte (na véspera, o bagageiro já me havia instruído da graduação qualitativa dos alojamentos: suíte, apartamento e chalet, por esta ordem...).
E lá mudàmos, com custo do up-grade, se houver, de conta da Abreu. Sem ser nada de especial, a diferença para o chalet é abissal. Então no WC é que se nota a diferença: todo em mármore, espaço imenso e “tri-compartimental”, devidamente estanquizado: área de lavatório, área de banhos e área... da trampa, pois então!

Ao menino e ao borracho... 

E também ao turista ensonado, acrescentaria eu...
O motorista da Avis entrega-me a viatura à saída do aeroporto. Peço-lhe informações sobre a rota para o meu destino. Abro o mapa debruçado sobre uma fila de carrinhos de bagagem; sobre o corrimão de um deles coloco inadvertidamente o casaco; a indicação no mapa era inviável, dado que o seu detalhe rodoviário estava nos antípodas da Michelin. “Precisa disso não, siô”. E o homem desata a dar-me um interminável rol de indicações, precisas por certo, mas muito pouco concisas. A lassidão do “jet-leg” lá me permitiu fixar a BR-116 e a C-040: seriam estas as vias a seguir.
- E é longe?
- Qui nada não, siô! Só 100 quilômetro. É aqui ao lado!
A relatividade própria de um país gigantesco. Antes de partir, pedi-lhe que me indicasse uma ATM. Ali estava uma a 30 metros, bem visível ao fundo da escada rolante que ligava o viaduto onde estávamos ao piso térreo.
- Maz é mêlhó lêvá já o carro, siô. Faz o rêtorno além e podje estacioná mezmo por baixo de onde noz eztamo agora.
A despedida, o agradecimento com uma gorjeta em euros e aí vamos nós. Ao fim de 5 minutos e de 1 km bem puxado, estaciono debaixo do viaduto de onde partira, mesmo ao lado da ATM. Peço para trás que me cheguem o casaco.
- Não está aqui, papá!
- Não está?!!!
Violentíssima descarga de adrenalina! O casaco ficara sobre os carrinhos porta-bagagens! Perante o espanto da família, aí vou eu impulsionado pelo susto, galgando a escada rolante em autêntico “sprint” olímpico. Rico início de férias, pensava eu enquanto me esgueirava por entre os carros que circulavam no viaduto, indiferente ao chorrilho de insultos que muito justamente me visavam.
Avisto a fila de carrinhos encostada à parede exterior da aerogare, continuo a correr em direcção a ela e,... milagre!!! O casaco continuava lá! Com toda a sofreguidão, vou-lhe logo aos bolsos. As duas carteiras, os documentos, os cartões, os euros, tudinho intacto. Que sensação de felicidade! Sono, cansaço, “jet-leg”, tudo desapareceu num instante. “Fresquinho da silva” para andar 100 kms ali pr’ó lado!
Terra de assaltos o Brasil? Noutros sítios, talvez. Não em Fortaleza!!!...

Condescendências 

A “moedeira” após uma intercontinental em turística; as formalidades intermináveis para o carimbo final no passaporte; a mala que ficou em Lisboa; a inépcia da funcionária da Avis que, ao fim de quase meia hora de infrutíferas tentativas, teve de pedir ajuda à colega da Hertz para que finalmente a geringonça da Visa emitisse o talão para eu assinar. Com tudo isto, as minhas imprecações (preconceito ideológico “oblige”) iam todas contra a TAP, essa hedionda empresa pública que nem bagagens sabe movimentar e que há muito devia ter sido vendida. Por sinal, a sua funcionária do aeroporto, Andrezza de seu nome, foi de um profissionalismo inexcedível. Mas como era da TAP, teve de me “ouvir”.
Noutro sítio, a discussão com o “lesma” da alfândega seria um dever cívico; fosse outro o País e a Avis teria perdido um Cliente para a concorrência ao fim de 10 minutos.
Mas os brasileiros são nossos filhos; e com estes condescendemos sempre...

Copy-paste 

A moça da recepção (que charme...) cedeu-me amàvelmente um CD. Para ele gravarei todas as postas escritas no inseparável portátil, permitindo este a nossa maravilhosa acentuação, algo que os anglo-saxónicos ostensivamente ignoram em muitos teclados, incluindo o do computador da recepção ligado à net.
A velha funcionalidade “copy-paste” a partir do ficheiro residente no CD garantirá postagens inteligíveis do outro lado do Atlântico, mesmo de um mísero computador, munido de paupérrimo teclado.

Blogs breaking logjam of journalism 

O meu amigo Jorge apresentou-me este artigo de Kathleen Parker sobre o poder dos blogues nos EUA. Segundo algumas opiniões, estão a ameaçar o poder da imprensa tradicional: Glenn Reynolds, the blogosphere's Rowdy Yates (www.Instapundit.com ), as well as a University of Tennessee law professor, last year wrote, "Big journalism is in trouble," and proclaimed "the end of the power of Big Media". Por cá, ainda não. Mas lá chegaremos.

2003/07/14

A Casa Pia deve continuar ? 

Começo a ganhar fastio aos sucessivos apoios à "instituição", às constantes referências às suas putativas virtudes, à imperiosa necessidade de garantir o suporte estatal à manutenção do modelo, etc.. Depois de escândalos de toda a sorte, após a descoberta de escândalosas tentativas de abafar escândalos escandalosamente antigos e por todos conhecidos, esta pergunta parece-me óbvia: para quê continuar com a Casa Pia? Sobretudo como estabelecimento público, suportado pelo dinheiro dos contribuintes?
Já se mudou a "gerência" e as coisas parecem não ter melhorado. Ensaiou-se um novo modelo e os atentados aos direitos dos menores continuam. Incrementou-se a vigilância mas, pelos vistos, as negociatas, o desperdício e as ilegalidades não desapareceram. Os novos responsáveis, administração e Governo, dão o ar de quem não sabe às quantas andam. Cada vez mais, essa instituição assemelha-se a um buraco sem fundo da ignomínia e do laxismo estatal.
Será que alguém admitiria que uma instituição privada que, por desventura, enfrentasse metade destes problemas permanecesse de portas abertas? Não será mais prudente e avisado pôr um fim a essa instituição pública e criar novos e modernos estabelecimentos de acordo com esquemas actualizados, obviamente, submetidos às regras da gestão privada? Esta seria a melhor forma de cuidar dos interesses dos menores cuja vida ficará, para sempre, ligada ao opróbio de terem frequentado uma organização tão desconsiderada.

Condolências por um dos nossos melhores 

Faleceu o Professor Henrique Barrilaro Ruas. Figura ímpar da História e da cultura portuguesa, patriota, monárquico, homem de bem.
À sua família e amigos, aos seus colaboradores no Lusitana Antiga Liberdade, apresentamos os nossos sentidos pêsames.

Não vi, mas contaram-me (com aditamento) 

Disseram-me que o "Herman Sic" foi um espectáculo degradante. Não vi. Há muito que desisti daquele programa e da "coisa" que o apresenta. Agora usou um deficiente para objecto de escárnio público. Parece que o auditório - lá - ria e batia palmas. Num exercício degradante de "gozar o tolinho". Tal como JPP, digo que é uma vergonha. Mais do que isso, um nojo. Nem sei se vale a pena dizê-lo. Mas estou curioso com a reacção das múltiplas associações de defesa disto ou daquilo. Se calhar não vão fazer nada. Era só um tolinho que, segundo me contaram, até parecia feliz por estar ali. Mas quase que se sobrepõe ao incómodo de ver um indefeso humilhado, constatar o ponto a que chegaram as referências da minha cidade para o resto do país.
P.S. Veja-se uma descrição pormenorizada desta desgraça televisiva em Janela Para o Rio.

Blogue inadiável 

Outro blogue imperdível, embora "engajado" partidariamente. Cito este extracto, do Francisco, pleno de lucidez: “Gosto da passadeira em madeira nas praias de Gaia. Não gosto do bimbo que só faz obra visível e esquece o resto. Gosto do cais de Gaia. Não gosto do malandro que se põe em bicos de pés para parecer mais importante que o Porto. Gosto do FC Porto. Não gosto dos políticos que usam o meu amor clubístico para caçar votos. Gosto do PSD. Não gosto dos PSD’s que me tomam por parvo. Gosto do Rui Rio – apesar de tudo o que ele faz mal. Não gosto do Luís Filipe Menezes – apesar de tudo o que ele faz bem.”

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